O novo Micra é o assalto mais ambicioso da marca ao segmento, tendo mudado por completo a filosofia do produto.  Para provar a sua valia, nada melhor que enfrentá-lo ao seu concorrente da aliança, o Renault Clio que é o carro mais vendido em Portugal e os dois gémeos coreanos do grupo Hyundai/Kia, respetivamente o i20 e o Kia Rio.

A atual ofensiva de produto da Nissan, da qual o novo Micra é uma peça decisiva, permitiu-lhe subir ao 4ª lugar nas vendas do 1º trimestre de 2017, à frente, entre outras, da Hyundai, Kia e Renault.

Tal como as vendas, também o novo Micra cresceu consideravelmente, sendo mesmo o maior de sempre, para poder oferecer um interior refinado, personalizado e um comportamento de condução de referência na classe, tendo para tal apostado decisivamente na tecnologia.

Com o motor 0.9 IG-T turbo de 90 cv o preço começa nos 15 400€ para a versão Visia, enquanto o topo de gama Tekna ascende aos 18 200€, o que somado aos 480€ da pintura metalizada e aos 1400€ do interior em pele personalizado, atinge o valor final de 20 080€. É claro que, como é cada vez mais a norma, existe uma campanha que, mediante a entrega de uma retoma e a adesão ao crédito da marca, faz descer esse valor até aos 17 080€.

Em oposição, o líder Clio, não oferece descontos, optando sim por valores de PVP competitivos. Em concreto, o motor 0.9 TCe está disponível a partir dos 14 670€ no nível Zen. O carro fotografado é uma versão intermédia, Limited Edition (16 420€), mas como todos os outros três rivais estão representados nas versões mais equipadas, optámos por considerar o Clio em versão GT Line, com um PVP base de 18 220€, que passa a 18 620€ se acrescentarmos a pintura metalizada, valor praticamente igual aos 18 552€ pedidos pelo Kia Rio 1.0 T-GDi TX (única versão disponível em Portugal com este motor), muito embora este só chegue a esse valor após a aplicada a campanha com um desconto de 2500€ e somado o valor dos dois opcionais disponíveis: pintura metalizada (350€) e pack safety (500€), com alerta da saída de faixa e travagem autónoma de emergência.

O Hyundai i20 1.0 T-GDI também tem um desconto de 1000€ até 30 de abril (ou seja, acaba no fim de semana, mas as campanhas tendem a ser renovadas), o que coloca o preço deste Comfort + Pack Look com oferta de sistema de navegação em 17 633€, contra os 14 718€ sem desconto da versão Blue. 

Qualidade vs desenho

Basta entrar no Micra para perceber que este é o carro mais jovem e personalizável do quarteto, sendo notório o empenho da marca na qualidade dos materiais do tablier e no tato dos botões, muito embora tenha sido colocado um acento muito forte nos lugares dianteiros e no condutor; a ideia das colunas integradas no apoio de cabeça resulta numa limpeza de som que nenhum dos seus rivais consegue igualar, mas à custa duma diferença notória para os outros ocupantes que insistem em aumentar o volume. Também é o que tem a melhor relação preço/equipamento, com destaque para os sistemas de segurança baseados nas câmaras 360º. As críticas ficam para uma posição de condução que, infelizmente, coloca o excelente volante (o melhor, a par do Kia) inclinado para a esquerda, para a habitabilidade traseira não está ao nível dos coreanos e para a inexistência de vidros elétricos atrás, embora essa falta vá ser corrigida depois do verão.

A seguir, em matéria de solidez e qualidade vem o Hyundai i20 (tem as bolsas nas portas de maior capacidade), mas o desenho é muito conservador, pelo que não brilha tanto como o primo da Kia, que, apesar de ser todo realizado em plásticos duros e ter uma montagem menos rigorosa, acaba por tirar partido de um desenho mais criativo e personalizado, bem como de um equipamento superior (está quase ao nível do Nissan), para deixar uma impressão mais jovial e moderna. Mas a nível de habitáculo, o grande destaque da dupla coreana vai para o espaço disponível atrás, ambos com mais de 700 mm para as pernas (contra os 665 mm do Micra e do Clio), valor digno de carros do segmento superior.

Por fim, o Clio, que, mesmo considerando o nível GT Line e a parte frontal do tablier macia acrescentada no restyling do final do ano passado, é o mais fraco a nível de qualidade de materiais e acabamentos; o forro do tejadilho e o acabamento no topo do para brisas são, nitidamente, os mais baratos. Em contrapartida, o sistema de infotainment R-Link Evolution tem uma performance superior aos rivais.

Nissan refinado e Kia desportivo    

Basta uma rua esburacada de Lisboa para perceber que a o Micra e i20 são mais sólidos e confortáveis no pisar. O Nissan revela mesmo um rolar refinado que não é especial neste segmento, pisando lombas de controlo de velocidade com uma facilidade desconcertante. O tato dos comandos também inspira precisão, outro aspeto em que é acompanhado pelo i20 que até tem uma embraiagem mais de pega progressiva.

O Renault e o Kia são menos isolados e deixam passar sempre mais aspereza da estrada para o habitáculo. Em compensação, a melhor direção para andar depressa é a do Clio, enquanto o chassis com mais aderência (tem os pneus mais largos e desportivos de série), menor rolamento de carroçaria e melhor direccionalidade de acelerador é o do Niro. Porém, isto tem um preço, já que a rigidez da suspensão do Kia coloca o amortecimento em crise quando abordamos irregularidades de alta frequência a velocidades mais elevadas, com as rodas a perderem o contacto com o solo e o carro a vibrar; aqui o amortecimento do Clio permanece como a referência.

O Micra é muito ágil a baixas velocidades, mas acusa demasiado rolamento de carroçaria do eixo traseiro quando queremos andar mais depressa e as reações deste perdem progressividade, ao passo que o i20 cede à subviragem ligeiramente mais cedo que os outros três. 

Direta ganha à indireta

Os motores são todos de três cilindros turbo com menos de 1 litro de cilindrada, estando a grande diferença na alimentação. Os carros coreanos usam injeção direta e possuem uma cilindrada cerca de 10% superior, o que lhes permite serem mais potentes e, sobretudo, atingir esse valor muito mais cedo, com destaque para a importante vantagem de binário abaixo das 2200 rpm. Aliás, essa vantagem de binário é tão evidente que lhes permite suportar um escalonamento de caixa com 3 velocidades mais duas de overdrive (a 3ª supera os 170 k/h reais às 6500 rpm e a 5ª faria 286 km/h ao mesmo regime…) e ainda serem mais rápidos em todos os registos de medições, e com um suplemento de peso de 150 kg face duo Micra/Clio. De resto, com pneus capazes de colocar toda a potência no chão no arranque (o i20 perde muita tração), o Niro consegue mesmo uns fabulosos 9,7 seg. nos 0 a 100 km/h. Sem razão aparente, o i20 parece sempre mais lento e com uma entrega de potência menos linear.

E algo semelhante acontece entre o Clio e o Micra. A versão do 0.9 TCe montada no Nissan tem uma calibração ligeiramente diferente, com o binário máximo a chegar 250 rpm cedo e a potência 250 rpm mais tarde, sendo essa pequena vantagem de elasticidade sentida quer no cronómetro quer na resposta ao acelerador.

Em contrapartida, em matéria de consumos é difícil descortinar um padrão de vantagem para qualquer um dos quatro, com o apetite a variar entre mínimos de 5 l/100 km e máximo em torno do dobro desse valor. É verdade que os valores medidos do i20 são superiores, principalmente em cidade, mas devido à anormal diferença de performance face ao Kia, talvez o Hyundai não estivesse na sua melhor forma. 

Tudo bons rapazes

A primeira grande conclusão é que, qualquer um destes quatro carros representa uma boa escolha. Posto isto, o Clio é prejudicado por ser o carro mais antigo e pela falta de uma política oficial de descontos. Os dois coreanos os carros mais consistentes, com mais espaço e os melhores motores, estando bem separados entre o mais confortável e conservador Hyundai e o mais desportivo e jovial Kia. Mas se quer um carro jovial e pleno de personalidade, com um tato refinado difícil de encontrar neste segmento e uma relação preço/equipamento imbatível, a escolha só pode ser o vencedor deste comparativo, o novo Nissan Micra.

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